sexta-feira, 9 de julho de 2010
Kick-Ass - Quebrando Tudo

Dave Lizewski, um nerd como tantos outros, levando uma vida normal, pra não dizer medíocre, que é apaixonado por HQ’s e derivados, decide se tornar um super-herói, não só por isso, mas também por querer ajudar as outras pessoas, absorvendo por completo a idéia de ser um justiceiro.
Tudo isso seria a clichê história de um herói da Marvel ou DC, se não fosse pelo mundo em que ele vive ser o mais próximo possível, pelo menos no início, do nosso, ou seja, sem alienígenas, super poderes, ou alta tecnologia surreal, e sua maior diferença para os outros super-heróis é justamente a vulnerabilidade. Não é por causa disso que devemos esperar um filme super realista, pois, como já disse, acima de tudo, Kick-Ass é um filme de super-herói e deve ser tratado como tal.
Quase todas as histórias de super-heróis começam ambientadas no nosso mundo e, conforme evoluem, passam a ter o seu próprio universo. Com Kick-Ass isso não é diferente, mas existe uma conexão com a realidade do filme e a nossa realidade que raramente é vista. Ao todo, o filme tira sarro dessas duas realidades, mas de uma forma inteligente e sem ser ridícula, mesmo tendo todos os motivos para achar isso, mas, quando estamos dentro do filme, em nenhum momento vem a cabeça que as roupas que aqueles personagens estão usando são ridículas (talvez surreais) e isso deixa mais explicito a excelente conexão que existe entre o nosso mundo e o deles.
Facilmente nos afeiçoamos ao personagem protagonista, talvez por identificação, já que todas as pessoas já passaram, ou vão, por uma crise existencial em algum período da vida, tentando encontrar um propósito para ela, ou pela simples humanidade dele, afinal, Kick-Ass não é uma força destrutiva que salva o dia, Kick-Ass é alguém louco, mas essa loucura seria como o gene X dos X-Men, existe em todas as pessoas (e todas queriam tê-lo), mas só se manifesta em algumas. Mas, todos vão concordar comigo quando digo que, o personagem preferido da grande maioria é outro, ou outra, tanto que, em uma parte do filme, Kick-Ass some, mas não faz a menor falta.
Hit Girl e Big Daddy são dois típicos anti-heróis, que tem sua origem contada em uma rápida seqüência, mas é essa origem que é o plot central do filme. Desde a primeira cena dos dois, se percebe a química que Nicolas Cage tem com Chloë Moretz, eles, especialmente ela, definitivamente roubaram a cena, com a sua dupla inusitada, mas que flui natural em cena e que não tem como não gostar. Esses personagens levaram o filme a outro estágio, fazendo aquela já mencionada conexão com o mundo real, ou seja, o mundo de Dave, com o mundo do Kick-Ass. Aliás, Kick-Ass é um justiceiro maluco que é involuntariamente envolvido em uma trama de vingança a um chefão do crime.
Falando em chefão do crime, no segundo ato do filme percebesse o quanto Kick-Ass tem referencias das HQ’s convencionais, especialmente as da Marvel, ou seja, as do Stan Lee. Vingança (a mesma com a qual Dave brinca no começo do filme), chefão do crime... Eu já vi isso antes! Não estou querendo dizer que Kick-Ass é um monte de recortes de outras obras, sendo que, ao meu ver, foram pegas idéias e levadas a outro patamar, onde o criador mostra a sua originalidade, e Kick-Ass, junto com inúmeras outras coisas, é o fator que as leva a esse patamar, pois, se ele não estivesse ali, talvez teríamos uma história como todas as outras.
Os vilões é outro ponto interessante do filme. Eles não são maus de colocar medo em criancinha e nem planejam dominar o mundo, aliás, se não fosse pelo fato de nós sabermos o que é certo e errado, ou melhor, estarmos do lado de Kick-Ass e Cia., nem como vilãos nós os teríamos tido, pois são inúmeros os filmes em que D’Amico e sua gangue seriam os mocinhos, mas é essa que é a graça.
Chris e Frank D’Amico jamais pensam que estão fazendo alguma coisa errada, pois a idéia de ética que eles tem é totalmente diferente da nossa. Para nós, Frank é uma pessoa terrível que destruiu a vida de Big Daddy, já ele, pensa que é apenas um empresário tentando salvar os seus negócios de lunáticos querendo dar uma de super-heróis, da mesma forma que podemos interpretar Hit Girl e seu pai como sendo pessoas muito perigosas e com sérios problemas mentais. Por isso considero Kick-Ass um filme sem vilões ou mocinhos, mas de conflitos intensos e uma narrativa excelente.
Ainda bem que não deram muito destaque ao relacionamento de Dave e Katie, não mais do que o necessário. Geralmente em filmes de super-heróis os produtores querem que o filme pegue a maior parcela de público possível, ou seja, atiram para todo lado, e isso tira o foco do que realmente interessa. Já com Kick-Ass isso não existe, pois o próprio filme sabe que não precisa ser comercial, mesmo que eu sinta que tenha faltado algo que fizesse dele uma das melhores adaptaçoes de HQ's pro cinema.
Cenas de ação muito bem feitas, que não se limitam a efeitos especiais pirotécnicos. Penso que Kick-Ass consegue ter mais impacto do que ação, digamos. Sinceramente acho que Michael Bay deveria estudar Kick-Ass, porque ele não sabe fazer filme de ação, o que ele sabe fazer é videoclipe de computação gráfica.
Eu imagino que Kick-Ass não seja um filme de pretensões grandes, mas não é por isso que ele não vá se levar a sério. Talvez tenha sido feito para um público especifico, mas não deixa de ser um filme bem feito e divertido. Eu duvido que alguma pessoa consiga ser indiferente a ponto de não rir ou vibrar, pelo menos uma vez, vendo Kick-Ass.

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