sábado, 17 de julho de 2010
Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo
Nunca joguei muito videogame, mas Príncipe da Pérsia é um dos poucos jogos que me lembro com carinho e um dos melhores que já joguei na infância, sendo que nunca joguei muitos jogos. Quando soube que haveria uma adaptação cinematográfica do game, fiquei contente e surpreso, pois não sabia que aquele jogo do qual tinha boas recordações era tão famoso e imaginei as possibilidades que o filme tinha.
Assim que saíram as primeiras informações do longa, como trailer, fotos do set etc., um pouco da minha expectativa se foi, pois uma das coisas mais óbvias que passou pela minha cabeça é que Príncipe da Pérsia não poderia ser nada menos que uma superprodução e esse não era o caso. Mas ainda tinha fé que, mesmo indo por um outro lado, poderia ser feito um bom filme.
Príncipe da Pérsia não só não é uma superprodução, como também não é um bom filme. Divertido até que pode ser, mas acaba por aí, e olhe lá. Em nenhum momento parece que o longa se leva a sério ou tem maiores pretensões do que mostrar um casal bonitinho correndo e lutando pelo deserto, enquanto trocam farpas em um clima clichê de sedução.
A história do filme é basicamente a de um príncipe, Dastan (Jake Gyllenhaal), que é acusado de traição e foge. No meio do caminho, ele encontra uma adaga que pode viajar no tempo. Com essa adaga, Dastan vai tentar provar sua inocência e salvar o mundo dos planos de seu tio, Nizam (Ben Kingsley). A primeira vista, pelo menos pelo trailer, parece um plot complexo, mas, na verdade, passa bem longe da complexidade, se tornando um pretexto para uma série de situações nada naturais, sem a menor lógica ou conexão uma com a outra. Príncipe da Pérsia leva a expressão “barriga”, como chamamos a parte chata de filmes, a um novo patamar.
Até que a idéia do filme é interessante, mas ela é muito mal contada. Um exemplo disso é o início do longa, em que nos são apresentados os personagens de uma forma rasa e é assim que eles ficam até o fim. Nenhum personagem é desenvolvido de verdade, não conseguindo colocar seriedade na trama, tanto que é impossível se emocionar ou temer pela vida de Dastan, que tem características que poderiam ser muito mais aprofundadas, como o fato dele ter sido um menino de rua, mas isso só é usado pra mostrar como ele é um herói nato, aliás, ter ou não ter sangue real não fez a menor diferença para o personagem. Em algumas partes de Príncipe da Pérsia, se tenta dar essa profundidade com a traição e confiança entre irmãos, mas algo que passa muito batido.
O casal protagonista, formado por Dastan e Princesa Taminia (Gemma Artertonnão), não possui química e nem talento pra levar um filme nas costas, sendo repetida a fórmula clichê do casal de filmes de ação que não se suporta, mas é obrigado a conviver. Na maior parte do longa, nós vemos eles andando pelo deserto e fugindo (às vezes, um do outro), algo que foi feito de uma maneira inorgânica e só para colocar um romance desnecessário. Dastan é tido como traidor em uma sala, onde eram pra estar os maiores guerreiros da Pérsia, e consegue fugir tão facilmente... Sem falar no alívio cômico, coisa que eu já não suporto mais ver em blockbusters, que nos dá um banho de vergonha alheia, tanto a parte do romance entre Dastan e Taminia, quanto no núcleo óbvio de vilões fracassados que se tornam aliados do Sheik Amar (Alfred Molina). Mas a história não anda, apenas enrola, e sempre voltamos ao início, o que o final incoerente fez questão de ressaltar.
Os vilões são tão genéricos, quanto o próprio Príncipe da Pérsia. Até tentam fazer um mistério sobre quem está por trás dos acontecimentos que fizeram Dastan um traidor, mas isso é completamente anulado pelos primeiros minutos do filme. A maior motivação do vilão é a vingança e a inveja, nada mais. Depois que descobrimos o verdadeiro malfeitor da história, nos é apresentado um exercito de Hassansins, que decepciona, já que foram tidos pelo roteiro como tão ameaçadores, mas que se mostram apenas um exército mais excêntrico.
Os efeitos especiais e a fotografia não fazem feio, mas não são grande coisa. Das cenas de ação, a única que vale a pena ressaltar é a do inicio do filme, aliás, não me incomodaria se todo o longa se passasse naquele momento, que também é a melhor parte dele, que contem muitas seqüências que lembram um game, mesmo que, em certos pontos, exageradamente.
A narrativa empurra a história com a barriga até o final do filme, sem muito tempo pra explicar o que está acontecendo, para o protagonista poder pular mais um pouquinho. Apenas são ditadas regras e seguidas orquestradamente, assim como num videogame, para que clipes e seqüências de ação pudessem ser conduzidas para um final apocalíptico, em que vemos uma luta entre o bem e mal pela qual simplesmente não nos importamos.
A direção do longa ficou por conta de Mike Newell, o mesmo que destruí Harry Potter e o Cálice de Fogo. Já o roteiro foi escrito pelo mesmo roteirista dos três jogos, Jordan Mechner, junto com Boaz Yakin e Doug Miro, roteirista do inédito Aprendiz de Feiticeiro.
Temos, então, uma fórmula muito parecida com Piratas do Caribe, e isso fica mais evidente já que a Disney, que desde a franquia dos piratas não emplaca nenhum filme não-Pixar, é o mesmo estúdio de Príncipe da Pérsia. Eu até entendo que o filme é uma aventura descompromissada, mas, sinceramente, acho que faltou o carisma de um Johnny Depp na história. Não sendo tão ruim para os padrões de filmes adaptados de games, Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo diverti pela suas cenas de ação, mas decepciona no resto.


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